Nestes dias em Roma está acontecendo o Sínodo Extraordinário da Família. Convocado por papa Francisco, o encontro tem como tema “Os desafios pastorais da Família no contexto da evangelização”. A Assembleia Extraordinária reúne 250 pessoas, entre bispos de diversas partes do mundo, sacerdotes, especialistas, estudiosos e treze casais.

A pauta é extensa. Com base no documento de trabalho, além de refletir sobre o desígnio de Deus a respeito da família, o Sínodo abordará os desafios dos casais que vivem juntos, dos separados e dos divorciados, dos divorciados que voltaram a se casar, de seus filhos, das mães adolescentes, dos que estão em irregularidade canônica e dos que pedem o matrimônio sem ser crentes ou praticantes. Serão enfrentadas também questões mais gerais como dificuldades de relação e comunicação dentro da família, violência e abuso, pedofilia e pornografia, como lidar com dependência de drogas e álcool e até mesmo com o novo fenômeno do impacto da internet e das redes sociais nas relações familiares.

É evidente que a família está em crise, mas não é uma instituição falida como pensam vários setores da sociedade. A família é uma instituição divina, portanto é sagrada. É o berço natural e o santuário da vida humana. É o principal canteiro para a construção da personalidade. É a primeira célula vital, o núcleo natural e fundamental da sociedade. Por isso, merece ser valorizada e protegida. Apesar das experiências ruins, das dificuldades e dos desafios que ameaçam os lares, nada é melhor na vida de uma pessoa do que poder contar com uma família. Ela faz um bem extraordinário na vida do ser humano. É muito bom se sentir amado, acolhido, esperado, repreendido, corrigido... cuidado. Quem não sente saudade de ficar no colo da mãe, de brincar de cavalinho com o pai, de brigar com os irmãos, de brincar de luta com o pai no tapete da sala, de levar bronca e de ficar dormindo junto na mesma cama? Nada de melhor do que o calor de casa, o cheiro do lar, a comida caseira e os abraços da família. Vida em família é prazer, mas também responsabilidade. É graça, mas também compromisso. A família tem umas funções que não podem ser negligenciadas. Quando a família não cumpre seu papel coloca em risco a vida de seus membros e, de reflexo, prejudica a sociedade. Desafios quais a violência, o abuso de drogas, a falta de ética e do espírito cívico, infelizmente, começam dentro de casa, em famílias desestruturadas que não conseguem exercer seu papel afetivo e formativo.

Uma das funções imprescindíveis da família é amar incondicionalmente.

Lucas, adolescente atendido num projeto da Pastoral do Menor, se queixa o tempo todo. Nunca se sentiu amado. Não sabe o que é receber um carinho. O pai tinha tempo para levar o cachorro e o passarinho tomar sol na praça, mas nunca tinha tempo para os filhos. A mãe, por sua vez, estava sempre atarefada. Trabalhava o dia inteiro desdobrando-se entre as tarefas de casa e as faxinas nas casas dos outros para sobreviver. “Isso me causa muito revolta! Não gosto nem de pensar! Quando vejo uma criança no colo do pai fico com inveja!”. Sem expressar nenhum tipo de julgamento, à primeira vista podemos afirmar que a família de Lucas falhou na função mais importante: amar incondicionalmente. O amor é fundamental para o desenvolvimento e o bem-estar psicoafetivo dos filhos. É ponto de partida imprescindível para a construção da identidade e da autoestima. A autoestima é o juízo que cada pessoa tem do seu próprio valor, e é absolutamente fundamental para o resto da vida. Se uma pessoa reconhece seu valor, se tem consciência de suas capacidades, pode ir adiante, confiar em seu potencial, enfrentar de cabeça erguida as frustrações e os desafios da vida, não esmorecer diante das dificuldades, dar a volta por cima, alcançar os seus objetivos, controlar seu comportamento, tolerar as críticas, ser socialmente competente e se tornar cidadão ético. É uma pessoa de bem com a vida, que reconhece seus pontos fortes e fracos, adora aprender coisas novas e tem prazer de viver e conviver. Mas a autoestima só vem do fato de sermos e nos sentirmos amados, especialmente por aqueles que amamos e que cuidam de nós. Vem do amor incondicional cuja primeira experiência acontece justamente dentro de casa. O amor incondicional é aquele que não exige nada em troca, que ama sem se importar com a cor, idade, raça, credo...; que não depende do que o outro faz de bom ou de ruim; é não fazer comparações aceitando a individualidade de cada um; é não ficar preso a palavras, gestos, fatos, eventos, situações emocionais; é relevar com compaixão as mágoas, as injustiças, as decepções vividas no cotidiano... É essa a ferramenta indispensável para a construção de um projeto de vida seguro, sereno e bem resolvido. Pelo contrário, é a falta de amor incondicional a causa principal da maior parte dos problemas e das dificuldades que as pessoas vivenciam no diaa-dia. Se fizer uma pesquisa entre as crianças e adolescentes que são agressivas e que têm um comportamento antisocial a maioria vai dizer que faltaram amor e carinho dentro de casa. Os pais não deram a devida atenção. A família, portanto, tem como primordial responsabilidade criar um ambiente onde é possível essa experiência de amor. Pode até faltar comida na geladeira e roupa no armário, mas o amor nunca pode faltar dentro de casa.

Amar incondicionalmente não significa passar a mão na cabeça e aceitar qualquer comportamento. Amar é educar, orientar e corrigir. Tem filho que acha que um bom pai é aquele que deixa os filhos fazer o que bem entendem. Mas não é bem assim. Quem ama cuida, alerta a respeito dos perigos, orienta, dialoga, coloca limites e chama os filhos à responsabilidade. Quem cresce sem limites, diz Içami Tiba, vira “parafuso de geléia”. Não está pronto para encarar os desafios. Quando o bicho pega se esparrama todo. Sente-se fracassado quando a vida não acontece do jeito que ele quer. Vira inconsistente.

Tem filho também que gosta duma pirraça. Aprendeu desde pequeno que é possível conseguir as coisas na base do grito e da chantagem. Se os pais deixarem, se torna um pequeno ditador. Vai aprender que a agressão é única maneira de conseguir as coisas. Quando se tornar adolescente vai partir para a violência. Companheiros para isso, infelizmente vai achar aos montes. Enganar, mentir, roubar, destruir, agredir vão se tornar seus comportamentos habituais. A violência vai ser a arma para continuar conseguindo o que ele quer.

Enfim, há pais que protegem demais os filhos, invadem o tempo toda sua vida, se intrometem demais, não deixam os coitados respirar. Isso também não tem nada a ver com amor. É sufoco. Pai que gosta disso não cria filho autônomo, mas dependente, incapaz de tomar suas decisões.

O jeito é amar de verdade. Quanto mais amada uma criança se sente, melhor esta aceita as regras e desenvolve amor e compaixão pelos outros. Ao contrário, uma criança não amada e/ou mal amada será uma pessoa que não gosta de si mesma e que, portanto, nunca amará os outros. Não tendo respeito por si e pelos outros, não compreenderá o valor das regras e as desrespeitará. Manoela é feliz por isso. Seus pais trabalham o dia inteiro, mas nunca sentiu sua ausência. Mesmo à distância eles marcam presença. Ligam várias vezes durante o dia. Nos momentos livres dedicam tempo a ela. Sabem conversar. Dão bronca quando precisa, mas sem fazer escândalo. Ela se sente amada. Sabe que os pais só querem o bem dela. É este o segredo das boas notas na escola, da desenvoltura na relação com os outros, da serenidade pessoal. Ser amado e ser apreciado são os anseios mais profundos do ser humano que devem encontrar a plena satisfação dentro de casa. A falta de amor cava um buraco na vida de uma pessoa que atrapalha a vida inteira. Há pessoas que procuram preencher este vazio com manias, drogas e outros vícios que acabam gerando um vazio mais fundo.

É hora de fazer de nossos lares verdadeiras comunidades de amor. É bom privilegiar todas as manifestações de afeto. Que tal relaxar o rosto e abrir um largo sorriso. Sejamos generosos nos abraços, nas palavras animadoras e nos elogios. Dediquemos mais tempo à família. Sintamos o prazer de ficar em casa com os familiares. Desliguemos a televisão, o celular e o computador para priorizar o diálogo. Rezemos juntos. Celebremos todas as datas significativas, sobretudo os aniversários. Lembremos que garantir uma convivência familiar saudável é nossa obrigação e é um direito de nossas crianças e adolescentes.

Pe. Saverio Paolillo
Missionário Comboniano Pastoral do Menor e Carcerária
Centro de Direitos Humanos Dom Oscar Romero - PB

 

Numa conjuntura em que várias comunidades eclesiais correm o risco de se fecharem em seu “mundinho” e de ficarem indiferentes diante das situações de exclusão, Papa Francisco ainda uma vez empurra a Igreja para as periferias para colocar o “pé na lama” e assumir a evangélica opção pelos pobres.

Entre os dias 27 e 29 de outubro, mais de 100 líderes de grupos sociais, 30 bispos engajados na defesa e promoção da vida dos mais pobres em seus países e alguns agentes de pastorais sociais reuniram-se em Roma para participar do Encontro Mundial dos Movimentos Populares. O evento foi promovido pelo Pontifício Conselho Justiça e Paz, em colaboração com a Pontifícia Academia das Ciências Sociais.

O Brasil contou com a participação de uma delegação liderada por dom Leonardo Steiner, Secretário Geral da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). João Pedro Stédile, da coordenação nacional do MST, também participou do evento.

Segundo o cardeal Peter Turkson, presidente da entidade que promoveu o evento, o encontro teve como objetivos o fortalecimento da rede de organizações populares, o favorecimento do conhecimento recíproco e a promoção da colaboração entre os movimentos sociais e as Igrejas locais, representadas por bispos e agentes pastorais comprometidos na promoção e tutela da dignidade e dos direitos da pessoa.

Durante o encontro os participantes focalizaram três grandes temáticas: Terra (trabalhadores do campo, problemática ambiental, soberania alimentar e agricultura); Pão (trabalhadores da economia informal, jovens precários e nova problemática do mundo do trabalho); Casa (assentamentos informais, habitações precárias e problemática das periferias urbanas).

Protagonistas do encontro não foram os especialistas, mas as próprias lideranças populares, representantes dos povos oprimidos, que descreveram a realidade de exclusão a partir de suas próprias experiências. A palavra ficou o tempo todo com aqueles/as que sentem na própria pele as consequências nefastas das desigualdades socioeconômicas. O método utilizado foi aquele latinoamericano do “ver-julgar-agir.

Papa Francisco, ao sublinhar a importância histórica do encontro, fez questão de frisar que o amor pelos pobres é uma opção divina, um elemento central do Evangelho e da missão das comunidades cristãs. A Igreja não pode se calar diante das injustiças e ficar indiferente diante do sofrimento dos excluídos, mas deve denunciar o sistema econômico que prioriza o lucro em detrimento da vida. "Este encontro nosso – afirmou papa Francisco – responde a um anseio muito concreto, algo que qualquer pai, qualquer mãe quer para os seus filhos; um anseio que deveria estar ao alcance de todos, mas que hoje vemos com tristeza cada vez mais longe da maioria: terra, teto e trabalho. É estranho, mas, se eu falo disso para alguns, significa que o papa é comunista. Não se entende que o amor pelos pobres está no centro do Evangelho. Terra, teto e trabalho – isso pelo qual vocês lutam – são direitos sagrados. Reivindicar isso não é nada raro, é a doutrina social da Igreja."

O Papa também apontou a solidariedade como caminho imprescindível para superar as desigualdades socioeconômicas e construir uma nova história. “Solidariedade – disse em seu discurso - é uma palavra que nem sempre cai bem. Eu diria que, algumas vezes, a transformamos em um palavrão, não se pode dizer; mas é uma palavra muito mais do que alguns atos de generosidade esporádicos. É pensar e agir em termos de comunidade, de prioridade de vida de todos sobre a apropriação dos bens por parte de alguns. Também é lutar contra as causas estruturais da pobreza, a desigualdade, a falta de trabalho, de terra e de moradia, a negação dos direitos sociais e trabalhistas. É enfrentar os destrutivos efeitos do Império do dinheiro: os deslocamentos forçados, as migrações dolorosas, o tráfico de pessoas, a droga, a guerra, a violência e todas essas realidades que muitos de vocês sofrem e que todos somos chamados a transformar. A solidariedade, entendida em seu sentido mais profundo, é um modo de fazer história, e é isso que os movimentos populares fazem.”

Segundo o jornalista francês Ignácio Ramonet o encontro foi um momento histórico para a Igreja (fonte: www.ihu.unisonos.br).

Primeiro, porque não é frequente que o Papa convoque, no Vaticano, um Encontro Mundial de Movimentos Populares do qual participam organizações de excluídos e de pessoas marginalizadas dos cinco continentes, e de todas as origens étnicas e religiosas: camponeses sem terra, trabalhadores informais urbanos, recicladores, carrinheiros, povos originários em luta, mulheres reclamando direitos, etc. Muitos dos dirigentes presentes estão ameaçados de morte por esquadrões da morte... Em suma, uma assembleia mundial dos povos da Terra. Mas dos povos em luta e que não se resignam.

Segundo, é menos frequente ainda que o Papa se dirija diretamente a eles, no Vaticano, dizendo-lhes que quer “escutar a voz dos povos” porque “os pobres não se contentam mais em sofrer as injustiças, mas que lutam contra elas” e que ele (o Papa) “quer acompanhá-los nessa luta”. Francisco também disse que “os pobres já não esperam de braços cruzados por soluções que nunca chegam; agora os pobres querem ser protagonistas para encontrar, eles mesmos, uma solução para os seus problemas”, pois “os pobres não são seres resignados, mas sabem protestar e se revoltar”. Disse que espera que “o vento dos protestos se converta em vendaval de esperança".

Terceiro. Tudo isto foi tanto mais importante quanto que este discurso, o Papa o pronunciou na presença do presidente da Bolívia, Evo Morales, ícone dos movimentos sociais e líder dos povos originários. Logo depois, o presidente Morales, muito aplaudido, tomou a palavra diante do mesmo auditório de movimentos populares na luta para explicar, com muitos exemplos, que “o capitalismo, que tudo compra e tudo vende, criou uma civilização esbanjadora”. Insistiu em que “é preciso refundar a democracia e a política, porque a democracia é o governo do povo e não o governo do capital e dos banqueiros”. Também acentuou que “é preciso respeitar a Mãe Terra” e “mobilizar-se contra a privatização dos serviços públicos”. Sugeriu a todos os movimentos populares reunidos por ocasião deste encontro para que criem “uma grande aliança dos excluídos” para defender os “direitos coletivos” que completem, segundo ele, os direitos humanos."

Com a realização desse encontro Papa Francisco se apresenta, ainda uma vez, como porta-voz das lutas dos pobres e de todos os excluídos do mundo. É inegável seu esforço de levar a Igreja para as ‘periferias existenciais” para ficar ao lado dos pobres assim como ensina Jesus de Nazaré. Essas suas atitudes corajosas são animadoras, sobretudo para todos aqueles e aquelas que militam nas pastorais sociais e nos movimentos populares e que hoje em dia, frequentemente, estão cada vez mais marginalizados dentro das comunidades eclesiais. Espero que seu exemplo seja seguido em todas as igrejas locais, sobretudo naquelas onde se percebe um processo de desmobilização e desconstrução do compromisso social da Igreja.

Vale a pena conferir as falas dos participantes e as palavras do Papa.

O mundo novo é possível a partir do protagonismo dos pequenos.

 

Padre Saverio Paolillo (pe. Xavier)
Missionário Comboniano Pastoral do Menor e Carcerária
Centro de Direitos Humanos Dom Oscar Romero - CEDHOR

 

Discurso de Papa Francisco no Encontro Mundial dos Movimentos Populares

“Bom dia de novo. Eu estou contente por estar no meio de vocês. Aliás, vou lhes fazer uma confidência: é a primeira vez que eu desço aqui [na Aula Velha do Sínodo], nunca tinha vindo.

Como lhes dizia, tenho muita alegria e lhes dou calorosas boas-vindas. Obrigado por terem aceitado este convite para debater tantos graves problemas sociais que afligem o mundo hoje, vocês, que sofrem em carne própria a desigualdade e a exclusão. Obrigado ao cardeal Turkson pela sua acolhida. Obrigado, Eminência, pelo seu trabalho e pelas suas palavras. Este encontro de Movimentos Populares é um sinal, é um grande sinal: vocês vieram colocar na presença de Deus, da Igreja, dos povos, uma realidade muitas vezes silenciada. Os pobres não só padecem a injustiça, mas também lutam contra ela!

Não se contentam com promessas ilusórias, desculpas ou pretextos. Também não estão esperando de braços cruzados a ajuda de ONGs, planos assistenciais ou soluções que nunca chegam ou, se chegam, chegam de maneira que vão em uma direção ou de anestesiar ou de domesticar. Isso é meio perigoso. Vocês sentem que os pobres já não esperam e querem ser protagonistas, se organizam, estudam, trabalham, reivindicam e, sobretudo, praticam essa solidariedade tão especial que existe entre os que sofrem, entre os pobres, e que a nossa civilização parece ter esquecido ou, ao menos, tem muita vontade de esquecer.

Solidariedade é uma palavra que nem sempre cai bem. Eu diria que, algumas vezes, a transformamos em um palavrão, não se pode dizer; mas é uma palavra muito mais do que alguns atos de generosidade esporádicos. É pensar e agir em termos de comunidade, de prioridade de vida de todos sobre a apropriação dos bens por parte de alguns. Também é lutar contra as causas estruturais da pobreza, a desigualdade, a falta de trabalho, de terra e de moradia, a negação dos direitos sociais e trabalhistas. É enfrentar os destrutivos efeitos do Império do dinheiro: os deslocamentos forçados, as migrações dolorosas, o tráfico de pessoas, a droga, a guerra, a violência e todas essas realidades que muitos de vocês sofrem e que todos somos chamados a transformar. A solidariedade, entendida em seu sentido mais profundo, é um modo de fazer história, e é isso que os movimentos populares fazem.

Este encontro nosso não responde a uma ideologia. Vocês não trabalham com ideias, trabalham com realidades como as que eu mencionei e muitas outras que me contaram... têm os pés no barro, e as mãos, na carne. Têm cheiro de bairro, de povo, de luta! Queremos que se ouça a sua voz, que, em geral, se escuta pouco. Talvez porque incomoda, talvez porque o seu grito incomoda, talvez porque se tem medo da mudança que vocês reivindicam, mas, sem a sua presença, sem ir realmente às periferias, as boas propostas e projetos que frequentemente ouvimos nas conferências internacionais ficam no reino da ideia, é meu projeto.

Não é possível abordar o escândalo da pobreza promovendo estratégias de contenção que unicamente tranquilizem e convertam os pobres em seres domesticados e inofensivos. Como é triste ver quando, por trás de supostas obras altruístas, se reduz o outro à passividade, se nega ele ou, pior, se escondem negócios e ambições pessoais: Jesus lhes chamaria de hipócritas. Como é lindo, ao contrário, quando vemos em movimento os Povos, sobretudo os seus membros mais pobres e os jovens. Então, sim, se sente o vento da promessa que aviva a esperança de um mundo melhor. Que esse vento se transforme em vendaval de esperança. Esse é o meu desejo.

Este encontro nosso responde a um anseio muito concreto, algo que qualquer pai, qualquer mãe quer para os seus filhos; um anseio que deveria estar ao alcance de todos, mas que hoje vemos com tristeza cada vez mais longe da maioria: terra, teto e trabalho. É estranho, mas, se eu falo disso para alguns, significa que o papa é comunista.

Não se entende que o amor pelos pobres está no centro do Evangelho. Terra, teto e trabalho – isso pelo qual vocês lutam – são direitos sagrados. Reivindicar isso não é nada raro, é a doutrina social da Igreja. Vou me deter um pouco sobre cada um deles, porque vocês os escolheram como tema para este encontro.

Terra. No início da criação, Deus criou o homem, guardião da sua obra, encarregando-o de cultivá-la e protegê-la. Vejo que aqui há dezenas de camponeses e camponesas, e quero felicitá-los por cuidar da terra, por cultivála e por fazer isso em comunidade. Preocupa-me a erradicação de tantos irmãos camponeses que sobrem o desenraizamento, e não por guerras ou desastres naturais. A apropriação de terras, o desmatamento, a apropriação da água, os agrotóxicos inadequados são alguns dos males que arrancam o homem da sua terra natal. Essa dolorosa separação, que não é só física, mas também existencial e espiritual, porque há uma relação com a terra que está pondo a comunidade rural e seu modo de vida peculiar em notória decadência e até em risco de extinção.

A outra dimensão do processo já global é a fome. Quando a especulação financeira condiciona o preço dos alimentos, tratando-os como qualquer mercadoria, milhões de pessoas sofrem e morrem de fome. Por outro lado, descartam-se toneladas de alimentos. Isso é um verdadeiro escândalo. A fome é criminosa, a alimentação é um direito inalienável. Eu sei que alguns de vocês reivindicam uma reforma agrária para solucionar alguns desses problemas, e deixem-me dizer-lhes que, em certos países, e aqui cito o Compêndio da Doutrina Social da Igreja, "a reforma agrária é, além de uma necessidade política, uma obrigação moral" (CDSI, 300).

Não sou só eu que digo isso. Está no Compêndio da Doutrina Social da Igreja. Por favor, continuem com a luta pela dignidade da família rural, pela água, pela vida e para que todos possam se beneficiar dos frutos da terra.

Em segundo lugar, teto. Eu disse e repito: uma casa para cada família. Nunca se deve esquecer de que Jesus nasceu em um estábulo porque na hospedagem não havia lugar, que a sua família teve que abandonar o seu lar e fugir para o Egito, perseguida por Herodes. Hoje há tantas famílias sem moradia, ou porque nunca a tiveram, ou porque a perderam por diferentes motivos. Família e moradia andam de mãos dadas. Mas, além disso, um teto, para que seja um lar, tem uma dimensão comunitária: e é o bairro... e é precisamente no bairro onde se começa a construir essa grande família da humanidade, a partir do mais imediato, a partir da convivência com os vizinhos.

Hoje, vivemos em imensas cidades que se mostram modernas, orgulhosas e até vaidosas. Cidades que oferecem inúmeros prazeres e bem-estar para uma minoria feliz... mas se nega o teto a milhares de vizinhos e irmãos nossos, inclusive crianças, e eles são chamados, elegantemente, de "pessoas em situação de rua". É curioso como no mundo das injustiças abundam os eufemismos. Não se dizem as palavras com a contundência, e busca-se a realidade no eufemismo. Uma pessoa, uma pessoa segregada, uma pessoa apartada, uma pessoa que está sofrendo a miséria, a fome, é uma pessoa em situação de rua: palavra elegante, não? Vocês, busquem sempre, talvez me equivoque em algum, mas, em geral, por trás de um eufemismo há um crime.

Vivemos em cidades que constroem torres, centros comerciais, fazem negócios imobiliários... mas abandonam uma parte de si nas margens, nas periferias. Como dói escutar que os assentamentos pobres são marginalizados ou, pior, quer-se erradicá-los! São cruéis as imagens dos despejos forçados, dos tratores derrubando casinhas, imagens tão parecidas às da guerra. E isso se vê hoje.

Vocês sabem que, nos bairros populares, onde muitos de vocês vivem, subsistem valores já esquecidos nos centros enriquecidos. Os assentamentos estão abençoados com uma rica cultura popular: ali, o espaço público não é um mero lugar de trânsito, mas uma extensão do próprio lar, um lugar para gerar vínculos com os vizinhos. Como são belas as cidades que superam a desconfiança doentia e integram os diferentes e que fazem dessa integração um novo fator de desenvolvimento. Como são lindas as cidades que, ainda no seu desenho arquitetônico, estão cheias de espaços que conectam, relacionam, favorecem o reconhecimento do outro.

Por isso, nem erradicação, nem marginalização: é preciso seguir na linha da integração urbana. Essa palavra deve substituir completamente a palavra erradicação, desde já, mas também esses projetos que pretendem envernizar os bairros populares, ajeitar as periferias e maquiar as feridas sociais, em vez de curá-las, promovendo uma integração autêntica e respeitosa. É uma espécie de direito arquitetura de maquiagem, não? E vai por esse lado. Sigamos trabalhando para que todas as famílias tenham uma moradia e para que todos os bairros tenham uma infraestrutura adequada (esgoto, luz, gás, asfalto e continuo: escolas, hospitais ou salas de primeiros socorros, clube de esportes e todas as coisas que criam vínculos e que unem, acesso à saúde – já disse – e à educação e à segurança.

Terceiro, trabalho. Não existe pior pobreza material – urge-me enfatizar isto –, não existe pior pobreza material do que a que não permite ganhar o pão e priva da dignidade do trabalho. O desemprego juvenil, a informalidade e a falta de direitos trabalhistas não são inevitáveis, são o resultado de uma prévia opção social, de um sistema econômico que coloca os lucros acima do homem, se o lucro é econômico, sobre a humanidade ou sobre o homem, são efeitos de uma cultura do descarte que considera o ser humano em si mesmo como um bem de consumo, que pode ser usado e depois jogado fora.

Hoje, ao fenômeno da exploração e da opressão, soma-se uma nova dimensão, um matiz gráfico e duro da injustiça social; os que não podem ser integrados, os excluídos são resíduos, "sobrantes". Essa é a cultura do descarte, e sobre isso gostaria de ampliar algo que não tenho por escrito, mas que lembrei agora. Isso acontece quando, no centro de um sistema econômico, está o deus dinheiro e não o homem, a pessoa humana. Sim, no centro de todo sistema social ou econômico, tem que estar a pessoa, imagem de Deus, criada para que fosse o denominador do universo. Quando a pessoa é deslocada e vem o deus dinheiro, acontecesse essa inversão de valores.

E, para explicitar, lembro um ensinamento de cerca do ano 1200. Um rabino judeu explicava aos seus fiéis a história da torre de Babel e, então, contava como, para construir essa torre de Babel, era preciso fazer muito esforço, era preciso fazer os tijolos; para fazer os tijolos, era preciso fazer o barro e trazer a palha, e amassar o barro com a palha; depois, cortá-lo em quadrados; depois, secá-lo; depois, cozinhá-lo; e, quando já estavam cozidos e frios, subi-los, para ir construindo a torre.

Se um tijolo caía – o tijolo era muito caro –, com todo esse trabalho, se um tijolo caía, era quase uma tragédia nacional. Aquele que o deixara cair era castigado ou suspenso, ou não sei o que lhe faziam. E se um operário caía não acontecia nada. Isso é quando a pessoa está a serviço do deus dinheiro, e isso era contado por um rabino judeu no ano 1200, explicando essas coisas horríveis.

E, a respeito do descarte, também temos que estar um pouco atentos ao que acontece na nossa sociedade. Estou repetindo coisas que disse e que estão na Evangelii gaudium. Hoje em dia, descartam-se as crianças porque a taxa de natalidade em muitos países da terra diminuiu, ou se descartam as crianças porque não se ter alimentação, ou porque são mortas antes de nascerem, descarte de crianças.

Descartam-se os idosos, porque, bom, não servem, não produzem. Nem crianças nem idosos produzem. Então, sistemas mais ou menos sofisticados vão os abandonando lentamente. E agora como é necessário, nesta crise, recuperar um certo equilíbrio. Estamos assistindo a um terceiro descarte muito doloroso, o descarte dos jovens. Milhões de jovens. Eu não quero dizer o dado, porque não o sei exatamente, e a que eu li parece um pouco exagerado, mas milhões de jovens descartados do trabalho, desempregados.

Nos países da Europa – e estas são estatísticas muito claras –, aqui na Itália, passou um pouquinho dos 40% de jovens desempregados. Sabem o que significa 40% de jovens? Toda uma geração, anular toda uma geração para manter o equilíbrio. Em outro país da Europa, está passando os 50% e, nesse mesmo país dos 50%, no sul são 60%. São dados claros, ou seja, do descarte. Descarte de crianças, descarte de idosos, que não produzem, e temos que sacrificar uma geração de jovens, descarte de jovens, para poder manter e reequilibrar um sistema em cujo centro está o deus dinheiro, e não a pessoa humana.

Apesar disso, a essa cultura de descarte, a essa cultura dos sobrantes, muitos de vocês, trabalhadores excluídos, sobrantes para esse sistema, foram inventando o seu próprio trabalho com tudo aquilo que parecia não poder dar mais de si mesmo... mas vocês, com a sua artesanalidade que Deus lhes deu, com a sua busca, com a sua solidariedade, com o seu trabalho comunitário, com a sua economia popular, conseguiram e estão conseguindo... E, deixem-me dizer isto, isso, além de trabalho, é poesia. Obrigado.

Desde já, todo trabalhador, esteja ou não no sistema formal do trabalho assalariado, tem direito a uma remuneração digna, à segurança social e a uma cobertura de aposentadoria. Aqui há papeleiros, recicladores, vendedores ambulantes, costureiros, artesãos, pescadores, camponeses, construtores, mineiros, operários de empresas recuperadas, todos os tipos de cooperativados e trabalhadores de ofícios populares que estão excluídos dos direitos trabalhistas, aos quais é negada a possibilidade de se sindicalizar, que não têm uma renda adequada e estável. Hoje, quero unir a minha voz à sua e acompanhá-los na sua luta.

Neste encontro, também falaram da Paz e da Ecologia. É lógico: não pode haver terra, não pode haver teto, não pode haver trabalho se não temos paz e se destruímos o planeta. São temas tão importantes que os Povos e suas organizações de base não podem deixar de debater. Não podem deixar só nas mãos dos dirigentes políticos. Todos os povos da terra, todos os homens e mulheres de boa vontade têm que levantar a voz em defesa desses dois dons preciosos: a paz e a natureza. A irmã mãe Terra, como chamava São Francisco de Assis.

Há pouco tempo, eu disse, e repito, que estamos vivendo a terceira guerra mundial, mas em cotas. Há sistemas econômicos que, para sobreviver, devem fazer a guerra. Então, fabricam e vendem armas e, com isso, os balanços das economia que sacrificam o homem aos pés do ídolo do dinheiro, obviamente, ficam saneados. E não se pensa nas crianças famintas nos campos de refugiados, não se pensa nos deslocamentos forçados, não se pensa nas moradias destruídas, não se pensa, desde já, em tantas vidas ceifadas. Quanto sofrimento, quanta destruição, quanta dor. Hoje, queridos irmãos e irmãs, se levanta em todas as partes da terra, em todos os povos, em cada coração e nos movimentos populares, o grito da paz: nunca mais a guerra!

Um sistema econômico centrado no deus dinheiro também precisa saquear a natureza, saquear a natureza, para sustentar o ritmo frenético de consumo que lhe é inerente. As mudanças climáticas, a perda da biodiversidade, o desmatamento já estão mostrando seus efeitos devastadores nos grandes cataclismos que vemos, e os que mais sofrem são vocês, os humildes, os que vivem perto das costas em moradias precárias, ou que são tão vulneráveis economicamente que, diante de um desastre natural, perdem tudo.

Irmãos e irmãs, a criação não é uma propriedade da qual podemos dispor ao nosso gosto; muito menos é uma propriedade só de alguns, de poucos: a criação é um dom, é um presente, um dom maravilhoso que Deus nos deu para que cuidemos dele e o utilizemos em benefício de todos, sempre com respeito e gratidão. Talvez vocês saibam que eu estou preparando uma encíclica sobre Ecologia: tenham a certeza de que as suas preocupações estarão presentes nela. Agradeço-lhes, aproveito para lhes agradecer, pela carta que os integrantes da Via Campesina, da Federação dos Papeleiros e tantos outros irmãos me fizeram chegar sobre o assunto.

Falamos da terra, de trabalho, de teto... falamos de trabalhar pela paz e cuidar da natureza... Mas por que, em vez disso, nos acostumamos a ver como se destrói o trabalho digno, se despejam tantas famílias, se expulsam os camponeses, se faz a guerra e se abusa da natureza? Porque, nesse sistema, tirou-se o homem, a pessoa humana, do centro, e substituiu-se por outra coisa. Porque se presta um culto idólatra ao dinheiro. Porque se globalizou a indiferença! Se globalizou a indiferença. O que me importa o que acontece com os outros, desde que eu defenda o que é meu? Porque o mundo se esqueceu de Deus, que é Pai; tornou-se um órfão, porque deixou Deus de lado.

Alguns de vocês expressaram: esse sistema não se aguenta mais. Temos que mudá-lo, temos que voltar a levar a dignidade humana para o centro, e que, sobre esse pilar, se construam as estruturas sociais alternativas de que precisamos. É preciso fazer isso com coragem, mas também com inteligência. Com tenacidade, mas sem fanatismo. Com paixão, mas sem violência. E entre todos, enfrentando os conflitos sem ficar presos neles, buscando sempre resolver as tensões para alcançar um plano superior de unidade, de paz e de justiça.

Os cristãos têm algo muito lindo, um guia de ação, um programa, poderíamos dizer, revolucionário. Recomendo-lhes vivamente que o leiam, que leiam as Bem-aventuranças que estão no capítulo 5 de São Mateus e 6 de São Lucas (cfr. Mt 5, 3; e Lc 6, 20) e que leiam a passagem de Mateus 25. Eu disse isso aos jovens no Rio de Janeiro. Com essas duas coisas, vocês têm o programa de ação.

Sei que entre vocês há pessoas de distintas religiões, ofícios, ideias, culturas, países, continentes. Hoje, estão praticando aqui a cultura do encontro, tão diferente da xenofobia, da discriminação e da intolerância que vemos tantas vezes. Entre os excluídos, dá-se esse encontro de culturas em que o conjunto não anula a particularidade, o conjunto não anula a particularidade. Por isso eu gosto da imagem do poliedro, uma figura geométrica com muitas caras distintas. O poliedro reflete a confluência de todas as particularidades que, nele, conservam a originalidade. Nada se dissolve, nada se destrói, nada se domina, tudo se integra, tudo se integra. Hoje, vocês também estão buscando essa síntese entre o local e o global. Sei que trabalham dia após dia no próximo, no concreto, no seu território, seu bairro, seu lugar de trabalho: convido-os também a continuarem buscando essa perspectiva mais ampla, que nossos sonhos voem alto e abranjam tudo.

Assim, parece-me importante essa proposta que alguns me compartilharam de que esses movimentos, essas experiências de solidariedade que crescem a partir de baixo, a partir do subsolo do planeta, confluam, estejam mais coordenadas, vão se encontrando, como vocês fizeram nestes dias. Atenção, nunca é bom espartilhar o movimento em estruturas rígidas. Por isso, eu disse encontra-se. Também não é bom tentar absorvê-lo, dirigi-lo ou dominá-lo; movimentos livres têm a sua dinâmica própria, mas, sim, devemos tentar caminhar juntos. Estamos neste salão, que é o salão do Sínodo velho. Agora há um novo. E sínodo significa precisamente "caminhar juntos": que esse seja um símbolo do processo que vocês começaram e estão levando adiante.

Os movimentos populares expressam a necessidade urgente de revitalizar as nossas democracias, tantas vezes sequestradas por inúmeros fatores. É impossível imaginar um futuro para a sociedade sem a participação protagônica das grandes maiorias, e esse protagonismo excede os procedimentos lógicos da democracia formal. A perspectiva de um mundo da paz e da justiça duradouras nos exige superar o assistencialismo paternalista, nos exige criar novas formas de participação que inclua os movimentos populares e anime as estruturas de governo locais, nacionais e internacionais com essa torrente de energia moral que surge da incorporação dos excluídos na construção do destino comum. E isso com ânimo construtivo, sem ressentimento, com amor.

Eu os acompanho de coração nesse caminho. Digamos juntos com o coração: nenhuma família sem moradia, nenhum agricultor sem terra, nenhum trabalhador sem direitos, nenhuma pessoa sem a dignidade que o trabalho dá.

Queridos irmãos e irmãs: sigam com a sua luta, fazem bem a todos nós. É como uma bênção de humanidade. Deixo-lhes de recordação, de presente e com a minha bênção, alguns rosários que foram fabricados por artesãos, papeleiros e trabalhadores da economia popular da América Latina.

E nesse acompanhamento eu rezo por vocês, rezo com vocês e quero pedir ao nosso Pai Deus que os acompanhe e os abençoe, que os encha com o seu amor e os acompanhe no caminho, dando-lhes abundantemente essa força que nos mantém de pé: essa força é a esperança, a esperança que não desilude. Obrigado.

Confesso que a frase não é totalmente minha. Inspirei-me numa expressão utilizada pelo jornalista Leonel Ximenes na coluna Victor Hugo do Jornal A Gazeta do dia 15 de novembro. As notícias a respeito do escândalo da Petrobrás assustam e angustiam. Não estou aqui para comemorar as prisões dos envolvidos. Quem conhece minha sensibilidade sabe que não me regozijo em ver gente presa.

Minha formação humana e minha experiência de militância na Pastoral Carcerária me levam a desacreditar no encarceramento como forma para punir e recuperar pessoas que cometem delitos. Diante daquilo que vejo todo dia no trabalho direto com os mais pobres e agora do ponto de vista de um bairro da extrema periferia da região metropolitana de João Pessoa, onde fiz a escolha de morar, me convenço cada vez mais que quem precisa de ser recuperada é a sociedade inteira. Não vejo nenhuma vantagem com o endurecimento das penas e o encarceramento de massa. A população carcerária tem aumentado assustadoramente nos últimos tempos ao passo que a violência, a corrupção, e os desvios de conduta continuam crescendo sem trégua. Inclusive, nas visitas que faço ao sistema penitenciário posso confirmar aquilo que a sociedade está careca de saber: atrás das grades só ficam os mais pobres. É mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha de que um rico atravessar a porta de um presídio. E, se por ventura chegar a entrar, garanto que tem tratamento diferenciado e permanece o mínimo necessário, pois o poder aquisitivo lhe dá condições de pagar bons advogados que lhe garantem todos os benefícios da lei, a diferença dos pobres que, mesmo tendo descontado a pena, permanecem mofando na cadeia.

Sem uma revolução ética que recoloque ao centro o cuidado com a vida em todas suas manifestações, fatos lamentáveis como o escândalo da maior empresa petrolífera do Brasil continuarão acontecendo e as riquezas do País, dons de Deus para o bem-estar do povo, continuarão engordando os bolsos de uma minoria.

Parabenizo os responsáveis pelas investigações que estão colocando às claras os crimes cometidos na Petrobrás, mas não posso deixar de fazer algumas considerações.

A operação Lava Jato e todos os outros escândalos que aconteceram no Brasil revelam que os responsáveis por acabar com o Brasil não são os pobres muitas vezes criminalizados e objeto de campanhas preconceituosas como aquela que explodiu logo depois da divulgação do resultado do último pleito eleitoral contra o povo nordestino, mas os “bacanas”, gente importante de colarinho branco, cara “grão fino” que usa roupa de grife e que manda e desmanda na área econômica e política, personagens inescrupulosos que se obstinam a fazer da coisa pública o trampolim para realizar seus próprios interesses. Não se trata de “pessoas ignorantes que não sabem votar”, mas de “gente estudada” que gosta de ser chamado de doutor, parte daquela elite brasileira de nariz empinada, que não gosta de pobre e que criminaliza quem defende uma ordem mais justa. É a eles e ao dinheiro por eles desviado que tem que ser imputada a responsabilidade do aumento da violência, da fragilidade do sistema de saúde, da precariedade da educação e de todas as outras desigualdades socioeconômicas inconcebíveis num País tão grande, tão rico e tão abençoado por Deus. O pior de tudo é verificar que “os parasitas” da corrupção conseguem encontrar hospedagem em qualquer administração pública, independentemente dos partidos que formam a coligação de governo. Inclusive, vale lembrar que candidatos de todos os partidos políticos se beneficiam, durante as campanhas eleitorais, de doações efetuadas por empresas supostamente envolvidas em esquemas de corrupção e que tais doações não têm nada de gratuito. Normalmente “os generosos doadores” recebem “generosas contrapartidas” por parte dos políticos eleitos.

Como já disse, felicito as instituições empenhadas em “extrair a lama que está no fundo dos poços da Petrobrás”, mas não posso deixar de fazer uma pergunta: Por que toda essa competência não é colocada à disposição para prevenir estes crimes? Por que os podres são descobertos somente depois de ser consumados? Onde ficam os órgãos de controle? Por que não há um acompanhamento sistemático para evitar que os desvios aconteçam? Precisa aprimorar os instrumentos de controle e de prevenção. A sociedade em geral deve parar de ficar somente na reclamação e se envolver mais nos mecanismos previstos na legislação que garantem a participação dos cidadãos na fiscalização e no controle do poder público, sobretudo no que diz respeito ao uso dos recursos públicos.

Mas há um terceiro elemento que me causa incômodo. Por que a Petrobrás não tem usado nos contratos com as empreiteiras o mesmo rigor que utiliza na hora de selecionar e financiar projetos da sociedade civil empenhada em enfrentar aquelas desigualdades que têm na corrupção um de seus principais responsáveis? Nada contra. Defendo esse rigor para garantir que os recursos sejam repassados a entidades sérias e que sejam efetivamente utilizados para execução do objeto do convênio. Mas não consigo entender a excessiva burocratização para fechar a torneira para quem trabalha em benefício da população em situação de vulnerabilidade social e a aparente facilidade com que ingentes somas de dinheiro teriam vazado pelo ralo da corrupção.

Tudo isso causa indignação. Dinheiro que poderia ser investido em políticas públicas e oferecer oportunidades a crianças, adolescentes e jovens em situação de vulnerabilidade social está sendo utilizado para financiar projetos pessoais de empresários e políticos “em situação de enriquecimento ilegal”.

Finalmente, para não “colocar todo mundo no mesmo poço de lama”, quero parabenizar todos os trabalhadores e trabalhadoras da Petrobrás que cumprem seu dever e dão o melhor de si para o bem da empresa e do País. Seu compromisso pelo bem comum fortalece a esperança num Brasil melhor cheio de oportunidades para todos.

Padre Saverio Paolillo (pe. Xavier)
Missionário Comboniano Pastoral do Menor e Carcerária
Centro de Direitos Humanos dom Oscar Romero

10 de dezembro é Dia Internacional dos Direitos Humanos. A data foi instituída em 1950 para comemorar a aprovação da Declaração Universal dos Direitos Humanos pela Assembleia da Organização das Nações Unidas que aconteceu em Paris aos 10 de dezembro de 1948.

 

Marco decisivo na história dos direitos humanos, a Carta reconhece que todo ser humano, sem distinção de qualquer espécie, seja de raça, cor, sexo, língua, religião, opinião política ou de outra natureza, origem nacional ou social, riqueza, nascimento, ou qualquer outra condição nasce livre e igual em dignidade e direitos. Portanto, todo ser humano é digno de ser respeitado e tem direito a ter todos seus direitos integralmente garantidos.

A afirmação da dignidade do ser humano e o respeito pelos seus direitos invioláveis constituem a resposta que a Humanidade deu às barbáries cometidas durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Ao longo daquele terrível conflito, uma das piores páginas de nossa história, o desprezo e o desrespeito pelos direitos humanos resultaram em atos cruéis e desumanos que ultrajaram a consciência da Humanidade. Além de milhares de soldados mortos em batalha, milhões de civis, sobretudo Judeus, ciganos e homossexuais, foram assassinados com requintes de crueldade pelo fanatismo nazista. Não dá para esquecer os horrores cometidos nos campos de concentração. Recordar, essa é a palavra certa. Fazer memória não para estimular a vontade de vingança, mas para virar página com decisões e ações em prol da vida e da dignidade humana.

Faço questão de fazer esse breve resgate histórico, pois, mesmo salvaguardando as devidas proporções, parece-me que estamos caminhando rumo a um novo momento de barbárie. Assistimos a um incontrolável crescimento dos índices de violência e, pior ainda, a um recrudescimento da mesma. Não só aumenta o número de atentados contra a vida e a dignidade humana, mas agrava-se a perversidade com que são cometidos seja a nível nacional seja a nível internacional. Degolamentos, esquartejamentos, ataques à integridade física de crianças, mulheres e idosos tornaram-se “fatos corriqueiros”. Mata-se por nada e com requintes de crueldade. E como se não bastasse, tornou-se “moda” por parte dos agressores filmar as cenas com um sadismo arrepiante e divulgá-las pela internet. Como membro do Conselho de Direitos Humanos do Estado da Paraíba, venho recebendo vídeos encontrados em celulares apreendidos pela polícia e/ou divulgados pela internet com cenas gravadas de “execuções sumárias”. Estou estarrecido. Matar, além de se tornar “prazeroso”, virou SHOW, um macabro espetáculo com tanto de “protagonistas” que aparentam certa satisfação em matar. Quando não são os próprios assassinos a filmar, entra em cena a população que faz questão de registrar a agonia de vítimas de acidentes ou de violência e compartilhar as imagens com seus amigos que, por sua vez, enviam para outros, numa perversa rede de compartilhamento da morte violenta que em poucos minutos se estende pelo mundo inteiro.

Mesmo com todo o respeito que tenho pela imprensa séria que tem compromisso com a verdade e mesmo sendo um intransigente defensor da liberdade de informação, não posso deixar de sublinhar a responsabilidade de certos programas televisivos que lucram com a violência. No lugar de contribuir para desencorajar o show da violência, o exploram e o incentivam. É tanta a ânsia de dar a notícia de atos de violência ao vivo que fica a suspeita de certa torcida para que aconteçam, porque sem violência faltaria a matéria prima para o programa. O gosto de detalhar tudo aquilo que acontece insistindo, sobretudo nos particulares mais sórdidos e mais escabrosos, não tem nada a ver com o dever do repórter de informar. Transforma-se a violência numa novela que explora o gosto pelo macabro e o alimenta. Protagonizam-se demasiadamente os agressores que, “até que enfim”, saem da invisibilidade e se tornam “famosos” por ter um espaço na mídia muito maior daqueles que são honestos e comprometidos com o respeito pela vida humana. Usam-se as vítimas com a desculpa de dar voz à sua dor e amplificar o grito por justiça, mas na realidade transformam-se as mesmas em comparsas de uma trama que tem como objetivo a exploração comercial de sua dor. Enfim, através do bombardeio incessante de fatos revoltantes e de comentários agressivos estimulam-se na população instintos primários e reações violentas. Dessa forma, faz-se o jogo da violência que gosta de gerar mais violência.

Será que estamos voltando às barbáries da II Guerra Mundial? O ser humano tem memória curta. Esquece com facilidade, sobretudo quando não vive a dor na própria pele. Está na hora de resgatar a memória das atrocidades da II Guerra Mundial e, sobretudo, a resposta que o mundo deu, através da Declaração Universal dos Direitos Humanos. O único enfrentamento exitoso à violência é uma revolução ética que ponha em primeiro lugar o reconhecimento da dignidade humana e o respeito indiscriminado e integral dos direitos humanos qualquer que seja o ser humano a quem se destinam. Todo ser humano tem direito a ser tratado como gente e a viver com dignidade. Os atos de desrespeito para com a vida praticados por alguns não podem e não devem justificar a barbarização das instituições e da própria sociedade em geral.

As instituições e a sociedade em geral, porém, preferem percorrer outro caminho. É uma pena constatar o processo de desqualificação dos DH e de criminalização de seus defensores. É uma mentira deslavada afirmar que “os defensores de Direitos Humanos são protetores de bandidos”. Na realidade todo ser humano deveria ser defensor incansável dos direitos humanos. Defender a promover a vida com dignidade deveria ser um “fator genético” da pessoa humana. Aqueles e aquelas que fazem da defesa e promoção dos Direitos Humanos a missão principal de sua vida são pessoas honestas, dedicadas, que não compactuam com a violência qualquer que seja a matiz e a motivação. Atrás dessa campanha difamatória há uma estratégia da “sociedade de mercado” para acabar com essa conversa de “direitos humanos”. Parte da mídia, dependente do faturamento que advém da propaganda, está se tornando porta voz dessa desqualificação dos DH. Aquilo que é direito está se tornando mercadoria. Hoje em dia o pior violador dos DH é o mercado que mercantiliza tudo aquilo que é essencial à vida humana. Saúde, educação, moradia, a própria alimentação... só são acessíveis para quem tem dinheiro no bolso. Não são mais direitos, mas necessidades que podem ser satisfeitas a segunda do poder aquisitivo. “Se tudo é negócio então tudo vira oportunidade de ganho – escreve Leonardo Boff -. A coisa é simples: os ricos são ricos, porque aproveitaram as oportunidades, e os pobres são pobres, porque se mostraram incapazes de se aproveitarem delas. A função do Estado se concentra em criar oportunidades para todos e de manter o acesso ao mercado livre e competitivo. A partir daí, cada qual lute e construa seu caminho. Onde reside a falácia desta visão? Na admissão de que não existem mais direitos humanos universais e incondicionais... O que existe, dizem, não são direitos, mas necessidades vitais. E cada um por si mesmo deve buscar atendê-las. Não existe mais o direito para todos de comer, vale dizer, de viver, nem o direito ao acesso à água potável e ao ar respirável. Tudo é acessível, contando que se pague. Comida, água e ar não são mais bens comuns mundiais, cuja gestão cabe à responsabilidade pública coletiva. Agora são bens econômicos, cuja gestão, para ser mais eficaz, dizem, caberá ao setor privado".
Na sociedade de mercado, portanto, não cabem pessoas que exigem o reconhecimento e o respeito pelos direitos humanos. Estes atrapalham os negócios. Há espaço somente para os consumidores insaciáveis que tenham dinheiro no bolso para comprar aquilo que necessitam e aquilo que é imposto pelo mercado por sedutoras campanhas publicitárias. Fomenta-se o descrédito pelas instituições públicas para privatizar tudo. “Arquivam-se” os DH universais para garantir somente os direitos dos consumidores. Quem não for consumidor não tem direito a nada e não tendo direito a nada deixa de viver. “O direito humano à vida se desvanece quando o ser humano padece uma vida sem direito” (Rafael Pérez Jaramillo, ativista de Direitos Humanos e jornalista).

A sociedade precisa se dar conta e se precaver dessa perversa cilada. O ser humano necessita sair o mais rápido possível desse processo devastador que o “descompaixona”, o leva a desistir de ser gente e o torna uma máquina predadora e voraz devoradora de tudo aquilo que é proposto pela “sociedade de mercado” sem se preocupar mais com a vida. É urgente redescobrir a compaixão, a solidariedade, o valor de si e do outro, a amorosidade, o cuidado com a vida e o respeito pela dignidade humana. Papa Francisco, na Exortação Apostólica “O Evangelho da alegria” nos convoca à “Revolução da ternura”. O reconhecimento da dignidade do todo e qualquer ser humano e o respeito pelos seus direitos são umas das principais bandeiras da revolução da ternura e fundamentos imprescindíveis para a liberdade, a justiça e um mundo de paz.

Parabéns a todos aqueles e aquelas que, apesar, das perseguições, continuam acreditando nessa batalha. Seu testemunho destemido constitui uma preciosa fonte de fé e de esperança na humanidade.

Padre Saverio Paolillo (pe. Xavier)
Misisonário Comboniano
Pastoral do Menor e Cracerária
Centro de Direitos Humanos Dom Oscar Romero – Santa Rita/PB

Estava na Europa durante os dias dos atentados em Paris e na Nigéria. Fui testemunha ocular da grande comoção 

CORDIALIDADE: UMA QUESTÃO DE VIDA OU DE MORTE

"A pessoa cordial é aquela que se relaciona com todos com uma boa dose de carinho, afeto e respeito".

“Blaise Pascal (1623-1662), gênio da matemática, inventor da máquina de calcular, filósofo e místico, percebeu, de golpe, a grande contradição dos tempos modernos que acabavam de se firmar: a desarticulação entre dois princípios que ele chamou de esprit de géométrie e esprit de finesse. O espírito de geometria representa a razão calculatória, instrumental-analítica, que se ocupa das coisas, numa palavra, a ciência moderna que com seu poder mudou a face da Terra. cordialidadeO espírito de finura que nós traduzimos por espírito de gentileza representa a razão cordial - logique du coeur (a lógica do coração) segundo Pascal - que tem a ver com as pessoas e as relações sociais, numa palavra, com outro tipo de ciência que cuida da subjetividade, do sentido da vida, da espiritualidade e da qualidade das relações humanas.

Ambas as razões são necessárias para darmos conta da existência. Que faríamos hoje sem a ciência? Que seríamos sem a ética, os caminhos espirituais e a psicologia? O drama da modernidade consiste na desarticulação destas duas razões imprescindíveis. De início, se combateram mutuamente, depois, marcharam paralelas e hoje, buscam convergências na diversidade, no esforço, ainda que tardio, de salvar o ser humano e a integridade da natureza. O fato é que o espírito de geometria foi inflacionado; com ele criamos o mundo dos artefatos, bons e perversos, desde a geladeira até a bomba atômica. O espírito de gentileza nunca ganhou centralidade, por isso somos tão vazios e violentos. Hoje ele é urgente. Ou seremos gentis e cuidantes ou nos entredevoraremos”. (Leonardo Boff)

A PALAVRA CORDIALIDADE À LUZ DA PALAVRA DE DEUS

1º dia: Cordialidade é agir com o coração
Mc 7,20-23: A raiz da palavra cordialidade é COR que em latim significa CORAÇÃO. Cordialidade, portanto, é agir com o coração. Cuidado, porém: do coração podem sair um monte de coisas que não prestam e atrapalham as relações interpessoais.

2º dia: A cordialidade exige um coração novo: investir na inteligência afetiva
Ez, 36,26-28: não basta investir na cabeça e na racionalidade. O ser humano precisa valorizar também a inteligência do coração. Para afinar a racionalidade estudamos bastante, para desenvolver a inteligência afetiva precisamos que o nosso coração esteja sintonizado com o ritmo do coração de Deus. Para se tornar cordial o ser humano precisa acolher o dom de uma nova consciência de si e o outro (coração de carne) inspirada pelo próprio Deus (espírito novo = amor). Só com esse coração novo pode sentir o valor de si e dos outros e aprender a se tratar e a tratar os outros com afabilidade.

3º dia: A cordialidade é a base de uma convivência respeitosa
Rm 12,9-21: a cordialidade torna a nossa convivência mais fraterna e acolhedora. Um grupo cordial cuida de tudo e de todos, não faz discriminações e está pronto a acolher todos, inclusive aqueles/as que não vão com a nossa cara.

4º dia: Cordialidade é tratar bem as pessoas e gostar delas até o ponto de querer dar a vida por elas.
1Ts 2,1-12: A cordialidade faz a diferença, sobretudo nos momentos de cansaço, depressão, perseguição e sofrimento. Quanto é bonito e importante poder contar, nos momentos de sufoco, com pessoas que nos tratam com afeto.

5º dia: A cordialidade é o selo de qualidade de nossa atuação
Ct 8,6-7: Não adianta o que fazemos, mas como o fazemos e, sobretudo, como somos, enquanto agimos. As nossas ações se tornam significativa quando “somos a imagem e semelhança de Deus”, isto é, quando nascemos do amor, somos feitos de amor e vivemos pelo amor.

PRATIQUE A CORDIALIDADE

Cordialidade no jeito de olhar: Não adianta fingir. Qualquer pessoa se dá conta, com o passar do tempo, que estamos fazendo teatro. Os nossos olhos costumam trair nossos sentimentos. Nosso rosto seja sempre iluminado. O brilho de nossos olhos seja, desde o primeiro contato, já um raio de luz para quem está imerso nas trevas. A falta de luz em nossa expressão facial pode ser sintoma de desinteresse para com o/a outro/a.

Cordialidade no jeito de falar: o tom da voz e o jeito de falar são decisivos para o primeiro impacto. Podem truncar a conversa antes de começa-la. Não tenha pressa. Evite sons breves, tons bruscos, falas ríspidas. Fale com calma, de maneira suave e mantenha um tom de voz caloroso. Tem macho que fica apavorado com voz mansa. Tem medo que algum engraçadinho tire sarro dele. Por isso gosta de engrossar voz. Não fique preocupado com a grossura de sua voz, mas com a mansidão de seu coração. Comunique seu ponto de vista com serenidade. Aprenda a convencer os outros pela consistência de seus argumentos e não pela força do tom da voz. Lembrese sempre das ‘palavras mágicas” nas relações com os outros. Há palavras que edificam e palavras que acabam com qualquer um.

Cordialidade nos gestos, atitudes e comportamentos: tem coisas que nunca são de sobre: abraços, cheiros, aperto de mão, disponibilidade, carinho, cuidado... Qualquer um desses gestos pode valer o dia para quem faz e/ou recebe. Nada de economia, portanto. A racionalidade manda poupar, segurar, se conter... A afetividade é expansiva por natureza. Mais se doa e mais cresce e se expande. Pratique a cordialidade, ainda que ninguém lhe retribua.

Oração
“Senhor,
No silêncio deste dia, venho pedir-te a paz, a sabedoria, a força.
Quero sempre olhar o mundo com olhos cheio de amor. Quero ser paciente, compreensivo, prudente. Quero ver além das aparências, teus filhos, como tu mesmo os vês.
E assim Senhor, ver somente o bem em cada um deles.
Fecha meus ouvidos a todas as calúnias; guarda minha língua de todas as maldades, para que só de bênçãos, se encha minha alma. Que eu seja tão bom e tão alegre, que todos aqueles que se aproximarem de mim, sintam a tua presença.
Reveste-me de Tua beleza Senhor. E que, no decurso deste dia, Eu Te revele a todos.Amem,amém, amém.” (Michel Quoist)

 

Pe. Xavier (Saverio Paolillo)
Missionário Comboniano Pastoral do Menor e Pastoral Carcerária
Centro de Direitos Humanos Dom Oscar Romero – CEDHOR - PARAÍBA

 

"Amar não é prender alguém e ter domínio sobre ele. Amar não é dobrar alguém a seus interesses e servirse dele para alcançar o que lhe agrada, mas consiste em desejar o bem do(a) outro(a), é fazer de tudo para contribuir com sua felicidade e é prezar pela sua liberdade. Todo amor que não promove o bem e a liberdade não convém".

O amor é... a mais bela de todas as coisas

“O dia mais belo? Hoje. A coisa mais fácil? Errar; O maior obstáculo? O medo. O maior erro? O abandono. A raiz de todos os males? amorO egoísmo. A distração mais bela? O trabalho. A pior derrota? O desânimo. Os melhores professores? As crianças. A primeira necessidade? Comunicar-se. O que mais lhe faz feliz? Ser útil aos demais. O maior mistério? A morte. O pior defeito? O mau humor. A pessoa mais perigosa? A mentirosa; O sentimento mais ruim? O rancor. O presente mais belo? O perdão. O mais imprescindível? O lar. A rota mais rápida? O caminho certo. A sensação mais agradável? A paz interior. A proteção efetiva? O sorriso. O melhor remédio? O otimismo. A maior satisfação? O dever cumprido. A força mais potente do mundo? A fé. As pessoas mais necessárias? Os pais. A mais bela de todas as coisas? o amor...” (Madre Tereza de Calcutá)

A PALAVRA AMOR À LUZ DA PALAVRA DE DEUS

1 º dia: O amor é a origem, a identidade e a vocação do ser humano
Gn 1,26-27: Deus criou: a criação do ser humano é uma iniciativa de Deus, um ato de amor gratuito por parte dele. O ser humano é gerado do amor e por amor (ORIGEM). O amor de Deus precede o ser humano e está à origem de tudo.

À sua imagem: Deus é Palavra, comunicação, comunhão, amor. Afirmar que o ser humano é criado à sua imagem significa admitir que, desde seu nascimento, ele é gerado como ser de diálogo, de comunhão, de comunicação e de relação. Portanto, o amor é genético, faz parte de seu DNA (IDENTIDADE). Ele é ser com, ser de relação. É pessoa. A vida humana é convivência amorosa.

À sua semelhança: Não é suficiente que o ser humano se relacione e ame, mas que se relacione e ame do mesmo jeito de Deus. Ele é chamado a fazer do amor que recebeu e que o moldou o seu projeto de vida (VOCAÇÃO).

Frase do dia: “O ser humano não pode viver sem amor. Ele permanece para si próprio um ser incompreensível e a sua vida é destituída de sentido, se não lhe for revelado o amor, se ele não se encontra com o amor, se não o experimenta e se não o torna algo próprio, se nele não participa vivamente”. João Paulo II.

2º dia: O amor é a senha que dá acesso à plenitude da vida e à autêntica felicidade
Mc12,28-34: O amor é o mandamento novo. É a síntese e a perfeição da Lei. Sem ele, o ser humano perde a sua semelhança com Deus, deixa de ser gente e não consegue ser feliz.

Frase do dia: “Não ame pela beleza, pois um dia ela acaba. Não ame por admiração, pois um dia você se decepciona. Ame apenas, pois o tempo nunca pode acabar com um amor sem explicação.” Madre Teresa de Calcutá

3º dia: O amor é o selo da qualidade do nosso ser e de nosso agir.

1 Cor 13,1-8.13: Podemos realizar muitas obras, proferir muitos discursos, até realizar milagres e fazer profecias, mas se faltar o amor a nada serve tudo isso. O amor é o ingrediente essencial em tudo o que somos e em tudo o que fazemos.

Frase do dia: “Ama e faz o que quiseres. Se calares, calarás com amor; se gritares, gritarás com amor; se corrigires, corrigirás com amor; se perdoares, perdoarás com amor. Se tiveres o amor enraizado em ti, nenhuma coisa senão o amor será teu fruto”. Sant´Agostinho

4º dia: Deus nunca desiste de nós. Seu amor é desde sempre e para sempre, custe o que custar e aconteça o que acontecer

Rom 8,35-39: O amor de Deus é mais forte de qualquer problema e dificuldade. Quem acolhe o amor de Deus e ama os outros como Ele ama supera toda e qualquer desafio e vence na vida.

Frase do dia: “Ser profundamente amado por alguém nos dá força; amar alguém profundamente nos dá coragem.” Lao-Tsé “O amor é a força mais abstrata, e também a mais potente que há no mundo.” Mahatma Gandhi

5º dia: O limite do amor é não ter limites

Mt 5,43-48: Viver é fazer de própria vida um dom aos outros sem esperar nada em troca e sem operar distinções entre os destinatários do nosso amor. De fato, a autenticidade do amor cristão é sua radicalidade, isto é, se mede pela coragem de amar até aqueles que nos fazem mal e de desejar o bem para os nossos inimigos.

Frase do dia: “A não-violência não existe se apenas amamos aqueles que nos amam. Só há não-violência quando amamos aqueles que nos odeiam. Sei como é difícil assumir essa grande lei do amor. Mas todas as coisas grandes e boas não são difíceis de realizar? O amor a quem nos odeia é o mais difícil de tudo. Mas, com a graça de Deus, até mesmo essa coisa tão difícil se torna fácil de realizar, se assim queremos.” Mahatma Gandhi

HISTÓRIAS PARA REFLETIR

O Amor

Um pescador certa vez pescou um salmão. Quando viu seu extraordinário tamanho, exclamou: "Que peixe maravilhoso! Vou levá-lo ao Barão! Ele adora salmão fresco."

O pobre peixe consolou-se, pensando: "Ainda posso ter alguma esperança."

O pescador levou o peixe à propriedade do nobre, e o guarda na entrada perguntou: "O que tem aí?"

"Um salmão", respondeu o pescador, orgulhoso.

"Ótimo", disse o guarda. "O Barão adora salmão fresco." O peixe deduziu que havia motivos para ter esperança.

O pescador entrou no palácio, e embora o peixe mal pudesse respirar, ainda estava otimista. Afinal, o Barão adora salmão, pensou ele.

O peixe foi levado à cozinha, e todos os cozinheiros comentaram o quanto o Barão gostava de salmão.

O peixe foi colocado sobre a mesa e quando o Barão entrou, ordenou: "Cortem fora a cauda, a cabeça, e abram o salmão."

Com seu último sopro de vida, o peixe gritou em desespero: "Por que você mente? Se realmente me ama, cuide de mim, deixe-me viver. Você não gosta de salmão, gosta de si mesmo!"

CADA UM DE NÓS COLHE O QUE SEMEIA

Uma mãe levou o filho pequeno ao fundo de um vale, e disse: "Grite as palavras: 'Eu te odeio'!" De repente, ele ouviu o som assustador de "EU TE ODEIO, Eu Te Odeio, Eu Te Odeio!" ecoando pelo vale.

Ela voltou-se para o filho e pediu: "Agora grite as palavras 'Eu Te Amo' o mais alto que puder."

Ele gritou com todas as forças: "EU TE AMO!" De repente, ouviu: "Eu TE AMO, Eu Te Amo, Eu Te Amo!" ecoando ao seu redor.

 

"Olhe dentro de um lago e veja um espelho de água refletindo sua imagem. Ame outra alma e seu amor se refletirá de volta para você."

 

A Efetivação do Estatuto é ferramenta indispensável para acabar com o extermínio das Crianças e Adolescentes Brasileiros

Caríssimo Estatuto da Criança e do Adolescente,

Fiquei sabendo que no próximo mês de julho você cumpre 25 anos. Parabéns. Fico feliz em saber que você conseguiu alcançar essa meta. Estou com inveja de você. Eu, infelizmente, não tive a mesma sorte.

São mais de 19 anos que fui embora desse mundo e estou morando no Além. Em 1996, quando ainda tinha 15 anos, fui morto a bala na periferia de São Paulo. Meu nome era Luiz Augusto, mas todos me chamavam de Guto. Fiz a besteira de cair no crack. Vivia na rua. Para sustentar o vício fui me envolvendo em pequenos furtos. Um dia fui parar na Febem. Alguém vinha me alertando a respeito dos perigos que estava correndo e das encrencas em que estava me metendo, mas a droga buzinava bem mais alto no meu ouvido e me puxava com força. Uma noite fui baleado num barzinho. Fiquei em coma por alguns dias. Não resisti aos ferimentos e fui embora antes do meu prazo vencer. Ao chegar nesse lugar percebi que não era o único. Já havia um monte de meninos e meninas da minha mesma idade, quase todos da quebrada, negros e pobres como eu, todos vindo da periferia. E o pior é que não para de chegar gente. O Coroa, é meu jeito carinhoso de chamar o Papai do Céu, está muito preocupado. Ficou sabendo que, se o Brasil não tomar vergonha na cara e não fizer alguma coisa séria para reduzir a violência, 42 mil crianças e adolescentes brasileiros, de 01 a 19 anos, poderão morrer assassinados até 2019. Morre mais gente no Brasil do que nos países onde tem guerra. O Brasil está entre os países mais violentos do mundo. Confesso que tenho uma vontade louca de voltar para a terra para convencer a garotada a sair dessa. Poderia estar formado, casado e trabalhando. Mas a violência berrou mais alto e seu poder de fogo matou eu e desfez meus sonhos. Tombei e vejo muitos outros tombarem. O que mais me chateia é constatar que a cada dia que passa chega uma molecada mais nova. Inclusive tem criança que não tem nada a ver. Morreu de uma daquelas balas perdidas que se acham aos montes pelas vielas e ruas da periferia. É menino e menina que morreu brincando na pracinha, dormindo numa humilde caminha atrás de uma parede de madeira, indo e vindo da escola, chupando sorvete e empinando pipa. Que dor. No meu caso o povo lá embaixo diz que “eu fiz por merecer”, mas estes coitadinhos e coitadinhas não têm culpa nenhuma no cartório. Vieram à força, antes da hora, arrancados do colo de mães e pais que não se conformam; ceifados prematuramente por indivíduos que desistiram de ser humanos, com a cumplicidade de uma sociedade que dá mais valor às coisas do que às pessoas.

Não dá para continuar assim. Precisamos fazer alguma coisa para salvar a garotada. Não quero que outros moleques passem pela mesma tragédia que eu vivi e não aguento mais ver o desespero das mães   derramando lágrimas sobre os jovens corpos de seus filhos.

Em primeiro lugar quero lhe alertar: cuidado porque também você tem os dias contados. Há um movimento para mudar sua cara e seu coração. Há gente que entende que é colocando “menor” na cadeia que se acaba com a violência. Esse é papo furado. Muitos de nós passaram por essa experiência. A cadeia não recupera ninguém, só ajuda a piorar a situação. É aí que se aprende a “lei do cão” para sobreviver. Eu já vi “laranja’ virar bandidão, moleque do interior se articular com os caras da capital, “ladrão de galinha” se tornar esquartejador, agente penitenciário virar quase louco pelas condições desumanas de trabalho. Cadeia brasileira é que nem caixão onde, com a bênção da omissão das instituições, enterram-se definitivamente as sobras da dignidade humana. O engraçado é que todo mundo sabe que o sistema brasileiro é falido, mesmo assim, acha ainda que é solução. Precisamos alertar a sociedade sobre esse equívoco. Reúna logo seus amigos e faça valer suas intuições. O que fez muita falta em minha vida foi o amor. Pai não tive e mamãe andava muito ocupada para sustentar a gente que nunca tinha tempo para nós. Peça com insistência para fortalecer os vínculos familiares e comunitários para que toda criança que vem ao Brasil seja amada desde a barriga da mãe. Se tivesse contado com o calor do abraço e a ternura de pai e de mãe com certeza não teria ido para a rua onde tive que me virar para sobreviver. Até agora sinto falta de uma família. Exija ajuda para as famílias para que cada criança possa viver com dignidade em seu próprio lar. Boa parte da violência praticada tem raiz na violência sofrida.

Estudei pouco. E como eu, quase todos/as os/as que estão aqui comigo não concluíram o ensino fundamental. Não foi por falta de vaga, mas porque a escola não conseguiu me cativar. Era uma bagunça só na sala de aula. A coitada da professora tinha que encarar de 35 a 40 alunos. Não havia carteira para todo mundo, faltava material e os assuntos tratados não tinham nada a ver com minha vida e a realidade da comunidade. Devo admitir que a rua me ensinou muito mais que os tempos que passei na sala de aula. Não basta construir escola, precisa de uma educação feita com amor, que dá valor aos guris e que ajude a entender e mudar esse mundo podre que está por aí. Não compensa estudar para virar mais um trabalhador explorado, condenado a ganhar o mínimo, porque de salário não tem mesmo nada. Se a escola fosse boa quantos moleques estariam nela no lugar de ficar na rua fazendo coisas erradas. Por favor, fale para os deputados que, no lugar de se preocupar com a redução da idade penal, se empenhem com a redução da falta de vergonha na cara, da corrupção, do desvio das verbas públicas, sobretudo daquelas destinadas à educação e saúde. Com todo o dinheiro desviado daria para garantir uma escola de qualidade que inclua na sociedade cidadãos e cidadãs com cabeça boa, espírito crítico e vontade de se comprometer para tornar o Brasil mais justo. Não podem botar moral na garotada e se autopromover como defensores do fim da impunidade, os políticos e administradores que usam todo tipo de recurso para se safar das punições e das consequências da lei da ficha limpa. Eu sempre aprendi que adulto tem que dar bom exemplo. Eu por um pequeno roubo passei meses na Febem. Sei de políticos que roubaram milhões e não passaram nem um dia na cadeia. Como deve pagar o “menor’ que mata assim deve ser enquadrado como assassino o político que, ao desviar dinheiro, permitiu que os pobres morressem nas filas dos prontos socorros por falta de atendimento e milhares de crianças e adolescentes se envolvessem na criminalidade por falta de acesso aos direitos humanos fundamentais.

E para terminar, você sabia que a gente bate uma pelada todo dia? Aqui tem tempo e espaço para o lazer. No Além há praças e parques à vontade. Tem céu de sobra para empinar pipa. Nada disso tive quando passei pelas terras brasileiras. Vivi entulhado numa favela onde não tinha espaço para nada. Na época de pipa tinha que subir na laje. Já corri o risco de cair. Se saísse para o asfalto corria o risco de ser atropelado. Sabe como é que é: quem empina pipa fica olhando para o alto e deixa de se preocupar com o que acontece embaixo. É terapia pura. E que dizer do emaranhado de fios elétricos que como teia de aranha aprisionam as pipas impedindo-lhes de subir até o mais alto céu? Quantas pipas cortadas, assim como nossas vidas ceifadas prematuramente. Por favor, peça às autoridades que levem a sério o lazer das crianças e adolescentes.

Querido Estatuto luta para melhorar e não para piorar. Faça valer o que você tem de melhor para as crianças e adolescentes brasileiros/as. Se você funcionar direito vai diminuir muito o número de moleques que vem para cá. Você é o único instrumento que, se funcionar para valer, pode acabar com o extermínio da garotada pobre de periferia.

Empodera os conselheiros e as conselheiras de direito. Tem uns que trabalham para caramba, mas tem outros que estão no conselho só de enfeite ou, pior ainda, a serviço dos interesses do poder público. É verdade que boa parte dos administradores públicos fazem pouco caso dos conselhos e não lhes fornecem a estrutura indispensável pelo seu funcionamento, mas nada disso pode se tornar pretexto para justificar e encobertar a omissão. É hora de voltar às ruas, de fortalecer as redes e de pressionar as instituições. Vale a pena fazer memória e resgatar a garra do movimento em prol das crianças e adolescentes Tudo que foi conseguido até agora foi na marra. O descaso das autoridades para com a causa da criança e do adolescente se torne combustível para a mobilização e o enfrentamento.  Bota para funcionar todos os mecanismos previstos para encostar o poder público na parede e garantir os direitos humanos às crianças e adolescentes.

Enfim, convence os adolescentes a embarcar nessa luta. A melhor ajuda que podem lhe dar nesse momento é desistir da violência e lutar pelos seus direitos no respeito da legalidade. Demos respeito para receber respeito.

Vou rezar pelo seu sucesso e vou organizar aqui no Além uma novena para o povo procurar soluções melhores e mais eficazes para diminuir a violência. A receita melhor é implementar políticas públicas de qualidade.

Desejo-lhe ainda uma vez um feliz aniversário. Espero que não despachem você para o espaço como fizeram comigo. Desejo-lhe longa vida para a longa vida das crianças e adolescentes brasileiros.

Puxa, que saudade de vocês todos. Um beijo no coração.

Luiz Augusto – Guto

PS: Inesquecível Guto, você mora em nosso coração como todas as crianças e os adolescentes mortos prematuramente pelo descaso com as políticas públicas exigidas pelo Estatuto da Criança e Adolescente. Em sua memória dedico este texto a todos aqueles e aquelas que sobreviveram e poderão viver com dignidade graças à luta pela manutenção e efetivação das conquistas contidas no Ecriad. Conte conosco. Quem topar, entre na luta com tudo. Agora é pra valer.

 

Texto escrito por Pe. Saverio Paolillo (pe. Xavier)
Missionário Comboniano Pastoral do Menor e Carcerária
Centro de Direitos Humanos dom Oscar Romero – CEDHOR - Paraíba

DESISTIR, JAMAIS!

Não é raro ouvir dizer: “O mundo está perdido!”, “Não há mais nada para fazer!”. É próprio da cultura do mal, da violência e da morte espalhar medo e desespero para obrigar o ser humano a se render e se dobrar à lógica da resignação.

 

Quem não quer perder de jeito nenhum os privilégios esperancaconseguidos às custas da exploração das massas inventa mitos, histórias e conversas para fazer a cabeça do povo e mantê-la dobrada a seus interesses. Suas artimanhas e seus artifícios são tão sofisticados que o povo acaba se convencendo que o mundo não tem outro jeito a não ser aquele imposto pelos manda chuvas.

É hora de levantar a cabeça, de fincar o pé bem firme na estrada e marchar rumo ao mundo novo possível. O caminho que nos separa desse sonho tem o tamanho de nosso desejo de realiza-lo e das energias que estamos dispostos a investir nele.

A pior violência que podem praticar contra o ser humano é roubar sua utopia e matar a sua esperança.

Reajamos! Mesmo se a situação é difícil e apesar de todos os desafios que nos cercam não pode haver espaço para o pânico, o desespero, a acomodação e a resignação. Não há nada que não possa ser mudado se tivermos a fé no “inédito possível”, a coragem de encarar a luta e graça de não desistir nunca.

“Enquanto houver vontade de lutar haverá esperança de vencer.” – dizia Santo Agostinho –. E acrescentava: “A esperança tem duas filhas lindas, a indignação e a coragem; a indignação nos ensina a não aceitar as coisas como estão; a coragem, a mudá-las.” (Santo Agostinho)

Nada de desistir, portanto. Sustentemo-nos reciprocamente. “Sem vacilar, mantenhamos a profissão da nossa esperança, pois aquele que fez a promessa, é fiel” (Hb 9,23).

A PALAVRA ESPERANÇA À LUZ DA PALAVRA DE DEUS

1º Dia: O manifesto da esperança: Deus está com o povo sofrido e marcha com ele rumo à libertação. Apesar de tudo amanhã haverá de ser um novo dia!

Ap 21,1-8: O livro do Apocalipse é a resposta de Deus à aflição e ao sofrimento do povo. É uma mensagem de conforto e esperança. Foi escrito não para causar medo, mas para ajudar a enfrentar situações difíceis na vida pessoal, comunitária e social. Sua leitura é decisiva nos momentos de desconforto. No texto Deus não deixa dúvidas. A história da humanidade não caminha para o nada ou para a destruição. Se fosse assim tudo seria absurdo. Ela marcha rumo à plenitude. A história tem como desfecho final a realização plena do Reino de Deus que já começou entre nós. A visão da Nova Jerusalém, descrita no livro do Apocalipse, é a prefiguração do mundo novo que tanto sonhamos. Esse é o epílogo que está na cabeça de Deus e de todos aqueles e aquelas que permanecem fiéis a Ele. A violência, a dor e as injustiças, apesar do estrago que
estão fazendo, tem os dias contados. A última palavra é de Deus e da comunidade que assume o seu sonho. Seu projeto de vida prevalecerá sobre a lógica da morte. A humanidade, resgatada por Deus, vai viver para sempre. Portanto, a nossa esperança não é um devaneio, mas é um dato de fato que tem como fundamento as promessas de Deus e se respalda na palavra dada pelo próprio Jesus: “Referi-vos essas coisas para que tenhais a paz em mim. No mundo haveis de ter aflições. Coragem! Eu venci o mundo”. (Jo 16,33);

Frase do dia: “Quando Deus visita o seu povo, restitui ao povo a esperança. Sempre. Pode-se pregar a Palavra de Deus brilhantemente: encontramos grandes pregadores na história. Mas se estes pregadores não conseguem semear a esperança, essa pregação não serve. É vaidade!”. (Papa Francisco)

2º Dia: Esperar em Deus não significa cruzar os braços e aguardar o milagre cair do Céu.

Lc 5,1-11: A esperança não é um ato de covardia, uma declaração de rendição ou um atestado de incompetência humana. Não tem nada a ver com o simples otimismo, com a ingenuidade, a inércia, o comodismo ou o fatalismo consolatório, ao contrário, é o oposto da evasão da realidade. A esperança é a
mais exigente e revolucionária experiência do coração humano. É uma qualidade, uma determinação heróica do cristão militante. É o compromisso de quem está disposto a arriscar a própria pele por algo que vale a pena de verdade. É a coragem de se envolver, de mergulhar na realidade, de dar a volta por cima e de recomeçar tudo de novo confiando na Palavra de Deus: “Senhor, tentamos a noite toda, e não pescamos nada. Mas em atenção à Tua Palavra, vou lançar as redes”. (Lc 5,5).

Frase do dia: “Dois homens olharam através das grades da prisão; um viu a lama, o outro as estrelas”. (Santo Agostinho)

3º Dia: A esperança é um ato de coragem.

Lc 1,46-55: A esperança tem a índole da ‘luta”, porque nos põe com determinação ao lado da Vida para combater a morte, ao lado da solidariedade para acabar com a injustiça e ao lado do bem para vencer o mal. É a força subversiva dos pequeninos e dos pobres de espírito, os “anawins” como Maria de Nazaré, que mesmo não contando com o poder econômico, o poder de fogo e a força bruta, mas somente com a força de suas convicções, a pureza de suas intenções e a ética de suas atitudes são capazes de derrubar os poderosos dos tronos e enaltecer os humildes, de mandar os ricos para casa de mãos vazias para que sobre comida para os famintos, de superar as adversidades da vida com a lógica da solidariedade. A esperança é uma confissão pública de indignação com aquilo que não presta, um manifesto de resistência a todas as
adversidades, um ato de reação não violenta aos mecanismos e às estruturas que colocam em risco o valor da vida, um grito de convocação a construir a civilização do amor, um apelo à transformação do mundo. É a irrupção do novo “aqui e agora”.

Frase do dia: “Devemos aceitar a decepção finita, mas nunca perder a esperança infinita” (Martin Luther King) 

4ºDia: A esperança é a virtude dos ousados.

Ap 7,13-17: A esperança é a virtude dos ousados, “daqueles que permanecem em pé”, que não perdem a postura, que não se vendem, que não se satisfazem com qualquer coisa, não entregam os pontos, não desistem, não se contentam com a mediocridade, não buscam o mínimo indispensável, não têm medo de
arriscar, mas ousam, têm coragem suficiente para encarar qualquer coisa na busca daquilo que vale a pena de verdade: “Para mim o viver é Cristo” (Fl 1,21).

Frase do dia: “Devemos promover a coragem onde há medo, promover o acordo onde existe conflito, e inspirar esperança onde há desespero. (Nelson Mandela)

5º Dia: A oração como escola de esperança

Salmos 42 e 121: “Primeiro e essencial lugar de aprendizagem da esperança é a oração. Quando já ninguém me escuta, Deus ainda me ouve. Quando já não posso falar com ninguém, nem invocar mais ninguém, a Deus sempre posso falar. Se não há mais ninguém que me possa ajudar – por tratar-se de uma
necessidade ou de uma expectativa que supera a capacidade humana de esperar – Ele pode ajudar-me. Se me encontro confinado numa extrema solidão... o orante jamais está totalmente só. Dos seus 13 anos de prisão, 9 dos quais em isolamento, o inesquecível Cardeal Nguyen Van Thuan deixou-nos um livrinho precioso: Orações de esperança. Durante 13 anos de prisão, numa situação de desespero aparentemente total, a escuta de Deus, o poder falar-Lhe, tornou-se para ele uma força crescente de esperança, que, depois da sua libertação, lhe permitiu ser para os homens em todo o mundo uma testemunha da esperança, daquela grande esperança que não declina, mesmo nas noites da solidão.”. (Bento XVI)

Frase do dia: “A esperança é cheia de confiança. É algo maravilhoso e belo, uma lâmpada iluminada em nosso coração. É o motor da vida. É uma luz na direção do futuro” (Conrad de Meester)

ORAÇÃO
"Senhor! Dá-me a esperança, leva de mim a tristeza e não a entrega a ninguém.
Senhor! Planta em meu coração a sementeira do amor e arranca de minha alma as rugas do ódio.
Ajuda-me a transformar meus rivais em companheiros, meus companheiros em entes queridos.
Dá-me a razão para vencer minhas ilusões.
Deus! Conceda-me a força para dominar meus desejos.
Fortifica meu olhar para que veja os defeitos de minha alma e venda meus olhos para que eu não cometa os defeitos alheios.
Dá-me o sabor de saber perdoar e afasta de mim os desejos de vingança.
Ajuda-me a fazer feliz o maior número de possível de seres humanos, para ampliar seus dias risonhos e diminuir suas noites tristonhas.
Não me deixe ser um cordeiro perante os fortes e nem um leão diante dos fracos.
Imprime em meu coração a tolerância e o perdão e afasta de minha alma o orgulho e a presunção.
Deus! Encha meu coração com a divina fé...Faz-me uma pessoa realmente justa"
(Tagore)

 

Pe. Xavier (Saverio Paolillo)
Missionário Comboniano
Pastoral do Menor e Pastoral Carcerária
Centro de Direitos Humanos Dom Oscar Romero – CEDHOR - PARAÍBA

 
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